sexta-feira, 27 de junho de 2008

O covarde

-- Cala a boca! -- Gritei. Depois disso, parei o carro assustado. Desci. Naquele momento, via imóvel e estirada ao chão uma senhora bem negra e idosa. Via escorrendo sangue da ferida de sua cabeça. Corri para o carro. Acelerei, voei.

Depois de um tempo, parei no asfalto com o coração acelerado. Mas agora, precisava fugir. A polícia provavelmente me procurava e aquela traidora de certo já revelou tudo o que podia.

Voltei para o carro e dirigi procurando um lugar mais afastado. Cheguei numa estrada de terra que entrava para uma fazenda. Aí sim. Sentei para pensar o que eu teria que fazer. Pensar? Pensar como? Na minha cabeça só restava exclamar desgraça, desgraça, desgraça! Lembrava-me da infeliz e sentia náuseas com a imagem da velha estirada no asfalto. Não conseguia acreditar naquela catástrofe. Nessas horas, lembramos sempre dos mais impiedosos demônios. Eis então as duas possibilidades: ou eu virei um ou ele está andando comigo e me infernizando.--Não é possível!-- Eu exclamava. Do nada... Como assim? Desgraça!

Eu precisava de uma anestesia para tocar novamente no volante e não cometer mais nenhum erro crucial. Arrisquei então um calmante. Arrisquei dois. E fui. Pra onde? Não havia. Dirigi por aproximadamente duas horas. Fui até aonde a gasolina me deu permissão. Parei ali com apenas um trocado e o cartão de banco que naquele momento não me serviu. Nestas horas eu lembro daquelas propagandas ridículas de cartões de crédito e de todas aquelas moças que me perguntavam todos os dias: quer fazer cartão? Não tem anuidade, etc.

Como não havia nada para me entreter dentro do carro, segui até o lugarejo que ali se encontrava. Naquela pequena cidade, um homem inconveniente se aproximou e me interrogou, querendo saber o que procurava. Eu não sabia se aquele homem tinha me visto em algum noticiário ou se estava apenas curioso. Senti medo. Também senti medo da cidade, pois por sua dimensão, poderia ser logo descoberto. E se eu tivesse permanecido em minha cidade? Eu me perguntava em silêncio. Inventei que eu era fazendeiro que morava á alguns quilômetros dali e que eu tinha ido oferecer meu carro para vender naquela região. Disfarcei perguntando ao moço se ele conhecia alguém que poderia arranjar um cliente em troca de uma considerável comissão. O individuo me pegou na prosa. Ele mesmo prontificou a fazer a venda. Talvez aquela tenha sido uma boa ideia. Eu precisaria de dinheiro para me esconder e talvez uma ida ao banco possa deixar pistas de meu rastro. Não mais me indignei com a falta do cartão de crédito.

Fui para a pracinha comer pastel, tomar um café. Logo avisto aquele homem trazendo uma pessoa interessada na compra do carro. Fiquei com pena de vendê-lo, mas era necessário. Infelizmente ou não, a pessoa desistiu da compra.

Ao escurecer fui para o único e humilde hotel da cidade. O tal homem pediu-me para ficar alguns dias por ali para conseguir vender o carro. Uma madame viria pela manhã conferir a proposta.

Passados poucos minutos, percebi que dormir era impossível. Eu só conseguia lembrar do ocorrido. Acordado já vinha em minha mente o pesadelo com a velhinha. Sonhei com o enterro daquela senhora. Todos estavam chorando quando de repente eu aproximava do túmulo e imaginava que ninguém sabia que eu era o assassino. Minha ex (talvez) se aproxima e grita: Assassino! Lembrei-me de minha mãe. Imaginei-a olhando pra mim depois disso. E uma voz dizia: quando estamos com um problema e choramos, no fundo sabemos que esse choro é desnecessário, pois choramos apenas porque só precisamos da angustia para nos ajudar a tentar achar uma solução para o problema. Mas, se o problema não tem solução, ele num é mais problema, ele é um fato. E quanto ao fato, somos impotentes e nos resta apenas chorar. E foi isso que eu fiz. Chorei. Chorei por horas e horas e horas. Arrisquei um calmante. Arrisquei três. Minha vontade era de consumir toda a cartela e por um fim em tudo. Porém, eu já tinha sido covarde o suficiente naquele dia e, além do mais, não queria fazer minha mãe sofrer ainda mais. Mas, os calmantes não funcionaram. Eu precisava de uma anestesia mais forte. Apelei para a cachaça. Não queria ter consciência naquele momento. Eu pensei: saber o que acontece a nosso redor ás vezes não é bom.

Desci do hotel e fui para um botequim imundo, desgraçado. Pedi cachaça. Era melhor não estar lúcido naquela hora. Isso ameniza a dor. É o que todos fazem. Estar consciente e ver tudo ao seu redor e pior, saber as conseqüências de suas atitudes não era o que eu queria. Era isso que estava me matando. Era a dor da culpa, a dor da perda. Perdí a confiança em mim mesmo, me perdi, pois aquele homem derrotado não era o mesmo do outro que era apenas intolerante.

Acordei na porta do bar com dor nas costas. Expulsaram-me de lá, fecharam as portas. Eu era um ninguém. É justo. No caminho para o hotel, o tal homem me avisa sobre a venda do carro. A documentação estava em minhas mãos. Um segundo de sorte.

Novamente fugitivo, fui para uma cidade não muito distante e não muito maior. Por lá, me hospedei em um pu%$### e durante o dia eu saía para procurar algum bico já que conseguir um emprego seria conseguir ser preso. Saudades do meu armazém. Servente de pedreiro, faxineiro, vendedor de bala. Era isso que restava para mim. Meu orgulho era maior. Meu armazém estava sendo administrado por minha mãe, imagino. E a pensar novamente nela, vejo inúmeras chamadas não atendidas, mensagens. Amigos, funcionários, a traidora e minha mãe. Eu não podia ligar. Mandei apenas uma mensagem: mãe, estou bem. Atirei o chip fora.

Os dias passaram e o dinheiro da venda do carro estava acabando. Aluguei um barraco. Anestesiava-me com cachaça e fumaça e sono. O sono foi maior e me fez pensar em uma idéia. Ridícula talvez parecia atitude infanto-juvenil escrever diário ou mesmo de criança inventar um amigo imaginário. Talvez parecesse com a idéia de mulher carente. Mas de certo, eu estava numa solidão profunda e precisava contar para alguém tudo que aconteceu e que estava acontecendo. Naquele momento, eu não confiava em ninguém. Então, resolvi escrever e fingir que alguém lia aquilo e me entendia. Esse alguém não precisava ser amigo, seria apenas alguém interessado na historia, como você. Isso foi bom porque eu precisava pensar e me esquivar de atitudes animalescas. E eu pensava: eu tenho que fazer algo por mim. Eu tenho que defender eu mesmo. Essa é a lógica. Todo mundo tenta se safar, até bicho. Todos os espertos e bobos defendem eles mesmos. É a lógica do mundo. Todo mundo pensa nele mesmo primeiro. Isso se chama amor próprio. Cheguei a essa conclusão após uma consulta com uma psicóloga. Mal eu sabia, mas pela primeira vez depois do ocorrido eu parei de pensar nos meus valores morais para pensar em mim do jeito que sempre (ou quase sempre me conheci). Todos nós temos a nossa verdade. A verdade que estava escondida em mim começou a se aflorar. Pensei? Como eu não posso me conhecer? Imagine um leopardo de barriga cheia que encontra uma presa fácil antes mesmo de devorar por total a outra presa que capturou. Após isso, surgi um outro leopardo faminto porque não conseguiu uma presa naquele dia. O que é justo nesse mundo? Inexplicável. Mas, penso que se eu fosse o leopardo de barriga cheia, eu guardava a outra presa para comer no outro dia afinal, não se sabe se no outro dia terei a mesma sorte. Mas se eu fosse o leopardo faminto tentaria roubar a presa que o outro conseguiu afinal, aquela carne faria mais falta para mim. Serão essas atitudes irracionais de sobrevivência? E o homem? Imagine que o leopardo seja o homem e sua presa seja o dinheiro. É triste a podridão humana, mas é necessária. É o mais famoso ditado do: nunca se sabe o dia de amanhã. Mas, eu não me sinto parte de uma podridão tão grande. Uma parte de mim apenas que é podre. E ela, me atormenta e me revigora. O fato é que ainda mais me amo do que me desprezo. Mas ter consciência disso é muito cruel. Eis que nessas horas de sentimento de culpa, preferia ser o leopardo irracional. Preferia até mesmo ser a presa. Pelo menos ela não sofre com a culpa. Dor imensa a que sinto para limpar minha podridão. Mas, o fato é que continuei sem entender porque algo me puxava para aquele consultório. E as palavras como: “você tem que resgatar seu amor próprio” funcionaram como uma anestesia dolorida. Inexplicável. E mesmo sem chegar à conclusão nenhuma, por alguns momentos pude manter a calma e me distrair um pouco.

Distrair. Era isso, eu precisava me distrair. Além de escrever essas páginas que você está lendo agora, fui na biblioteca e peguei emprestado uns livros e loquei alguns filmes. Eu precisava manter minha mente ocupada para parar de pensar besteira. Mas, isso contradizia o que falei antes. Para eu buscar meu amor próprio eu não poderia ficar fugindo de pensamento nenhum, muito pelo contrario, eu teria que trabalhá-los. No mais, assisti filmes e comecei a ler um livro. Eu já tinha filosofado bastante.

Como dizia o velho ditado: mente vazia é oficina do diabo. Mas não se sabe ao certo o que seria a mente ocupada. Eu tinha vontade apenas de dormir. Mas, eu não podia me distrair dormindo. Eu estava triste. Minha memória esvaziava e fixava apenas no acidente. Era uma praga que sempre voltava para a minha cabeça. Às vezes, de tão triste que eu ficava, eu não conseguia chorar. Eu me encolhia no canto com o olhar caído e a mente ferida latejando a dor. Não. Eu não podia dormir. A num ser se eu estivesse no mais intenso cansaço. Só assim, eu teria a sensação de desmaio. Mas, o que eu faria para me cansar? Fui pra boate, a única da cidade.

Aquelas “musiquinhas” com a mesma batidinha do tun tun tun me irritavam. Mas, me conformei. Assim como me conformei em ter as putas em vez de Alice. Traidora. Assim como meu melhor amigo. Inacreditável. As putas não me trazem raiva, pois já sei como são. Mas com a Alice eu era apaixonado. Em vão. Tanta certeza que eu tinha que isso era recíproco. Em vão. Mas eu mesmo me torturo por lembrar.

Outra preocupação que eu tinha era quanto ao dinheiro, ele ia acabar. Eu precisava de uma solução. Ao passar por uma igreja eu tive a mais terrível das idéias. Era boa, mas era hipócrita. Primeiro porque eu não acredito que igreja seja a casa de Deus. Casa de Deus é o coração dos humanos. E segundo porque é tão cruel meu pensamento que prefiro me esquivar das razões.

Como dito, hipocritamente, comecei a freqüêntar uma igreja católica. Em as missas, todas orações, eu estava lá. Fiz muitos amigos. Fiquei encantado com a forma com que me tratavam afinal, ao meu ver, eu não os dava nada em troca. Fiz então minha revelação: eu queria ser missionário. Pela primeira vez contei a alguém o que tanto me atordoava. Obviamente, que esse alguém era o padre e lugar era um confessionário. O padre não mudou sua feição, cumprindo ser um bom profissional. Em um ritual especial, junto com algumas futuras noviças, mais tarde eu faria o três votos: o de castidade, obediência e pobreza. Era o mínimo que eu poderia fazer para retribuir a hospedagem e a comida.

Fui para o convento. Lá era grande e bonito. A casa por fora parecia uma mansão. Havia uma varanda rodeando toda casa, jardins bens cuidados, espaço para caminhar e curtir o sol pela manhã. Dentro da casa, havia uma sala e uma cozinha enorme. Na frente da cozinha. Havia um espaço com várias mesas de refeitório. A escada era grande e larga. Havia dois quartos: um para os rapazes e outro maior para as mulheres. A capela ficava ao lado dos quartos. Eu era o trigésimo primeiro morador. Fui muito bem recebido. Prepararam um banquete de café da manha e decoraram as mesas com flores. Logo arrumaram uma cama para mim. Minha rotina agora era totalmente diferente. Eu ajudava a arrumar a casa, ia à missa da igreja que ficava ao lado do casarão, participava de reuniões, estudava latim e fazia caridade. Eu ajudava a montar cestas básicas e a entregá-las, participava de bazares e eventos promovidos pela igreja, ou melhor, por todos os moradores do casarão e pela comunidade. Além disso, eu ministrava oficina de literatura para a garotada. Nas horas mais longas, eu escrevia estas páginas ou batia papo com meus novos amigos. O ambiente lá era de mais profunda calma e harmonia. Havia muito respeito e companheirismo. Acho que fiz um bom negócio. Ou não. Eu estava pobre, sem puta e sem Alice. Eu ainda desejava Alice, mas meu orgulho era maior que esse desejo. Eu também tinha que ser obediente. Às vezes eu não queria rezar no horário determinado, não queria comer o que tinha no cardápio. Porém, me conformei. Fazer essas obrigações seria melhor que ser servente de pedreiro, faxineiro, vendedor de balas. No convento também tinha lá suas regalias como a assinatura de jornal. Porém eu não lia, tinha medo de ler alguma reportagem sobre mim. Da mesma maneira, não escutava radio e não assistia tv.

Com o passar do tempo, eu fui me acostumando com aquilo. Comecei a ver a igreja com outros olhos por perceber como eram camaradas as pessoas que nela conviviam. Comecei digamos a “entrar no clima”. Eu promovia uma roda com o acompanhamento de violão. Ficávamos horas cantando músicas da igreja juntamente com outras que nos mesmos compúnhamos. Comecei a ministrar o grupo de jovens. Eu passava boa parte do meu tempo procurando textos para trabalhar com a garotada assim como imaginando brincadeiras e um novo acorde para alguma musica consagrada. Eu promovia excursões quando havia algum evento de uma outra igreja. Era tranqüilo. Até do dia que eu fui comprar

De repente um camarada me grita: Cristiano! Eu não sabia quem era, mas suspeitava que era alguém da minha cidade. Se for, terei que fugir. Fingi que não o escutei e fui para o casarão. Naquele momento, meu coração apertou. Como eu sairia do nada da igreja? Eu devia explicações.

Meus pesadelos voltaram. Só que agora eu não tinha anestesia. Decidi montar um rápido projeto para sair da cidade. Havia uma cidadezinha próxima dali que tinha uma comunidade muito pobre. Resolvi ir lá ajudar eles, e claro fugir. E assim fiz.

Chegando lá, Alice. Assim do nada, Alice. Não consegui ter nenhuma reação. Fiquei parado, a olhando. Ela aproximou-se de mim e disse a palavra mais sensata: -- Covarde!—Tremi.

-- Eu não traí você, nem seu amigo. Nos encontramos por acaso, e conversamos a vontade e com risos apenas porque o assunto era incomum a nos dois: você.

Eu não queria admitir, mas naquele momento pensei que talvez meu julgamento estava errado. Eu e meus falsos pressupostos. E ela continuou;

-- Não existe polícia atrás de você.

Mais uma vez pensei: eu e meus falsos pressupostos.

-- Sua mãe não está atrás de você. Ela viajou e depois que voltou se mudou . Eu falei que você tinha ido resolver algumas pendências do armazém.

E por último:

-- Não existe mulher morta nesse acidente.

Aisha, a senhora que atropelei apenas estava desmaiada. O sangue que vi não escorria de sua cabeça e sim de suas costas que estavam raladas. Ela nem se deu o trabalho de se preocupar comigo.

Achei-me novamente, reencontrei minha vida. Ás vezes Deus tem que nos fazer perder para aprendermos o tanto que é grande a podridão humana. Pedí perdão a todos e fui correndo abraçar a minha mãe.


Um comentário:

Robertinha disse...

Algo entre o angustiante e o aflitivo. Que bom que o "felizes para sempre" permanece.
Bravo!